quarta-feira, 29 de outubro de 2025

 

Quarta na cama. Mais um dia que insiste em acontecer. Abri os olhos hoje... e foi como se uma âncora no meu peito. A primeira sensação não foi a luz, nem o som do despertador. Foi o cansaço. O cansaço de quem viveu mil anos em uma única noite.

Levantar... é uma eternidade. Cada músculo grita que prefere continuar onde está, afundado no colchão, no escuro, fingindo que o mundo não existe. Mas a bexiga dói. A boca está seca... elas me puxam de volta para essa farsa.

Escovar os dentes. Odeio o espelho. Porque ele não mente. Ele mostra a casca. Os olhos injetados que já não choram mais, só pesam. A pele pálida. E aquela expressão... de quem está sempre, sempre no limite de um grito que nunca sai. É a cara de alguém exausto de ser e existir.

O café... eu faço a rotina. A água, o ruído. Engulo o café com leite moro. Ele não aquece nada, não me desperta. Só me lembra que tenho que alimentar o corpo, para ele aguentar mais algumas horas de um dia de trabalho.

E as pessoas no trabalho... Elas falam. "Bom dia, Fúlvio!" Com aquela energia irritante, aquela facilidade de mover os lábios, em sorrir. Eu aceno. Murmuro algo. Elas não percebem que cada palavra que eu tenho que formular é como levantar uma pedra? Elas não percebem que estou vendo o mundo através de um vidro sujo?

"Você está bem?"

Ah, essa pergunta. A mentira mais cansativa de todas. "Sim, estou bem. Só um pouco ocupado." Estou a desmoronar por dentro, mas digo que estou "ocupado". Se eu dissesse a verdade... Se eu dissesse: "Eu sinto um vazio tão grande que tenho medo de cair nele para sempre. Tenho medo que amanhã seja exatamente igual, e que o depois de amanhã também seja. E que este cansaço existencial... nunca acabe." Todos fogem. Me dariam conselhos estúpidos. Me mandariam "pensar positivo".

Pensar positivo. Eu penso. Penso que o silêncio seria um alívio. Penso que a escuridão seria uma paz merecida.

Estou tão cansado de lutar contra algo que eu nem sei o que é! Não é um inimigo que eu possa ver ou tocar. É a minha própria mente que me trai, o meu próprio corpo que se recusa a seguir em frente. E eu tenho que fingir que está tudo normal. Tenho que vestir a máscara. Tenho que responder aos e-mails, tomar café, pagar contas... É uma tortura. Cada minuto é uma corda que me aperta.

Eu só queria parar. Parar de sentir. Parar de tentar. Parar de respirar este ar pesado. Eu só quero... o fim do intervalo. Que esta “peça” acabe. Eu desisti de ser o protagonista. Alguém, por favor, me tire de cena. Eu estou esgotado. Completamente, terrivelmente, irremediavelmente... esgotado.

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